terça-feira, 15 de agosto de 2023

 Fichamento Bibliográfico Crítico

Texto: OLIVEIRA, Eva Aparecida. A TÉCNICA, A TECHNÉ E A TECNOLOGIA. Itinerarius Reflectionis, Goiânia, v. 4, n. 2, 2008. DOI: 10.5216/rir.v2i5.510. Disponível em: https://revistas.ufj.edu.br/rir/article/view/20417. Acesso em: 5 ago. 2023.


Citação: “No principio o nosso conhecimento sobre a natureza era apenas mítico. As intempéries da natureza representavam o sobrenatural. Mais tarde, o sobrenatural se torna natural, pois começa a ser desmistificado. Ao invés de representar perigo, começamos a perceber o quão útil seria a natureza para sobrevivência da humanidade. Depois, percebemos ainda que a natureza não é apenas útil, mas pode ser transformada e superada pela inteligência da humanidade. Nesse processo de transformação da natureza a sua destruição foi inevitável.”

Comentário: O texto já inicia com uma concepção eurocentrada do conhecimento. Dizer que “no princípio” (que princípio? existe princípio?) o conhecimento era apenas “mítico” é desvalorizar todo o conhecimento que foi produzido por povos anteriores aos gregos, ou mesmo ao mesmo tempo que eles, mas em outros lugares do mundo, reduzindo-o ao status de mito. Outro problema é afirmar que no processo de transformação da natureza a sua destruição foi “inevitável”. Será que realmente foi inevitável? Ou na verdade poderia sim muito bem ter sido evitada, como no caso de povos que também possuíam técnica e também transformaram em certa medida sua natureza, como os indígenas das américas, mas não de forma inconsequente, agressiva e danosa.


Citação: “Na verdade, a técnica, a ‘techné’ e a tecnologia correspondem às três fases do desenvolvimento histórico da técnica.”

Comentários: Visão linear e progressiva do desenrolar do tempo, também evidente na passagem em que cita os estágios do conhecimento do homem sobre a natureza.


Citação: “Segundo o autor [VARGAS], a relação de parentesco entre técnica e magia, se dá no fato de que tanto na técnica quanto na magia o objetivo pretendido é a modificação do mundo e a interferência nas leis da natureza, modificando o seu curso.”

Comentários: Interessante aproximação entre técnica e magia. Será que podemos afirmar que a magia é uma técnica que foi se perdendo ao longo do tempo conforme a técnica foi sendo racionalizada pelo mundo ocidental? É o que Abbagnano parece afirmar na sequência.


Citação: “Uma técnica aperfeiçoada pela educação de geração a geração, chegando mesmo a ser apresentada e descrita em livros e compêndios e não simplesmente sabida quase em segredo – como era a magia - pelos profissionais. A instituição da “techné” tira o mágico das técnicas.”

Comentários: Novamente a questão da magia x técnica. O mágico é visto como o hermético, o secreto e também como o atrasado que necessariamente precisa dar lugar ao lógico e racional, ao desencantado, com a evolução da própria técnica.


Citação: “A burguesia das cidades medievais atingiu seu poder político por meio dessas atividades de “techné”, aliadas ao sucesso comercial.”

Comentários: A burguesia e, por consequência, o capitalismo, são frutos da técnica, da desmagicização da técnica.


Citação: “A razão se liberta da sobrenaturalidade e é impulsionada pelas necessidades colocadas pelos novos modos de se construir a vida, novos esquemas de pensamento – quantitativos e experimentais – e novas práticas: técnicas, financeiras, comerciais - foram criadas as condições para surgimento, também de novos métodos e novos saberes.”

Comentários: É como se a razão realmente tivesse se libertado de todos os entraves para a sua atuação estritamente objetiva e nada parcial, como vemos ao longo da história. Nada disso. Na verdade, a razão é mais um mito inventado por um povo que pretendia que seu pensamento fosse universalmente válido, neutro e livre de preconceitos, mas que na verdade perpetrou as maiores perversidades da história humana.


Citação: “A obediência ao desejo de poder, a vocação para dominar e controlar, está no interior do empreendimento científico.”

Comentários: Primeira alusão no texto à influência dos desejos específicos da sociedade europeia na constituição da racionalidade, da ciência e da tecnologia. Desejos esses não muito diferentes das anteriores classes dominantes.


Citação: “Esta contratécnica seria uma técnica ou conjunto de técnicas que corrigiriam os efeitos devastadores provocados pelo desenvolvimento da técnica, através de meios suficientemente potentes para diminuir ou equilibrar os efeitos da devastação.”

Comentários: É um mito que perdura até os dias de hoje: de que a solução para os problemas que a tecnologia criou está na própria tecnologia. Ou então, transportando para o campo político econômico, que os problemas que o capitalismo criou, como a degradação ambiental, podem ser resolvidos pelo próprio sistema, como num capitalismo verde.


Citação: “A busca do conhecimento tem sido uma constante na história da humanidade que pode ser resumida como uma busca pelo saber/poder. A vontade de conhecer subjaz ao desejo de dominação do objeto: conhecer pata ter controle.”

Comentários: Assim como a autora reconhece que a técnica não está indissociavelmente ligada ao modo como o capitalismo a utiliza (o que é passível de críticas, já que desde que técnica virou tecnologia é o próprio capitalismo que dita seu desenvolvimento), deveria também reconhecer que a busca por conhecimento não está indissociavelmente ligada a busca de dominação. Vide, novamente, povos que cultivam um modo de vida alternativo ao nosso.


Citação: “Os desafios que o intelectual-docente enfrenta no cotidiano são ao nosso modo de ver duplos: em primeiro lugar, sente-se impotente no sentido da amplitude de informações que ele sente como necessários serem ordenados, quanto mais, analisados, frente a sua área de conhecimento e como essa é transformada em relação com a realidade; em segundo lugar, a dificuldade de desmitificação das diversas tecnologias midiáticas, que, por razões de desconhecimento e ao mesmo tempo de fascínio o conduzem muitas vezes a atitudes extremas de rejeição total, de encantamento irrefletido ou mesmo de indiferença.”

Comentários: O desafio do professor realmente passa por esses dois conflitos, mas isso deve-se ao papel tradicional atribuído a esse profissional. Um professor crítico-reflexivo, como o que procuramos ser, deve compreender seu papel de articulador, em conjunto com os educandos, de formas de resistência e desobediência em relação às determinações das tecnologias informacionais e às diretrizes sociopolíticas dominantes.


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